O que eu faço se falhar?

Precisamos falar sobre falhas. Afinal, nem só de cases de sucesso, vive o empreendedorismo

Por Monique Fernandes - Em 04.03.2016


De acordo com o Sebrae, metade das empresas brasileiras morrem nos primeiros três anos de vida. E, mesmo assim, evita-se falar sobre as falhas que os empreendedores cometem e as empresas que quebraram ao longo do caminho. As matérias e capas de revistas apenas falam sobre o tal Glamour Empreendedor e o quão mágico e gratificante é empreender. Parece que o sucesso vende muito mais do que o fracasso, contrariando a velha máxima jornalística de “que só desgraça vende jornal.” De fato é muito recompensador empreender, cada qual com os seus motivos. Porém, se tantas empresas quebram, por quê não falamos sobre as falhas?

“No Brasil, nós temos essa cultura de não querer falar dos nossos erros. Ninguém quer ficar em segundo lugar, porque, como dizia o Ayrton Senna, o segundo é o primeiro dos últimos. Nós temos um ego muito inflado,” explica Edson Mackeenzy que participou do painel sobre falhas, em janeiro passado, na Campus Party Brasil 2016. 

Já, de acordo com Allan Campos, fundador do Instaquadros, startup que quebrou em 2015 e também estava no painel, expor a falha além de ser importante para o ecossistema, ao contrário do que todos pensam, o beneficiou; acabou recebendo propostas de trabalho.

“Depois que você constrói algo legal, você começa a ser conhecido como um cara que inovou. Recebi várias propostas de investidores e de parceiros comerciais da empresa. Acabei aceitando uma para desenvolver um produto em uma empresa que tinha uma pegada parecida com a que trabalhávamos no Instaquadros,” conta Campos.

Iniciativas para falar sobre falhas

Já nos EUA, os empreendedores sabem o quão importante é falar abertamente sobre falhas. Eles fazem eventos como a Failcon, uma grande conferência em que fundadores e diretores de empresas vão para discutir as falhas que cometeram e as lições aprendidas a partir delas. Inspirados na Failcon, os organizadores do Geeks On Beer, evento para startups que aconteceu entre 2011 e 2014, em diversos lugares do Brasil, fez uma sessão dentro do evento, chamada “Quebrei.” O objetivo era proporcionar uma experiência parecida com a Failcon, onde empreendedores mais novos pudessem aprender com as experiências dos mais antigos.
“Quando criamos o evento em 2011, percebemos que, embora, o ecossistema de startups da época ainda fosse muito imaturo, era relativamente fácil achar empreendedores de sucesso. Porém, não tinha nenhum evento que falasse sobre fracasso. E a equipe organizadora sempre sentiu falta de cases de falhas. Então, decidimos que o evento mostraria os dois lados da moeda: a palestra “Mandei Bem”, sobre sucesso, e a “Quebrei”, sobre fracasso. O mais interessante é que mesmo sendo temas separados, os palestrantes que íam contar seus cases de sucesso, sempre falavam sobre as falhas que cometeram ao longo do caminho até eles chegarem lá. Foi aí que percebemos que é impossível ter sucesso sem fracassar,” explica Cadu de Castro Alves, organizador do Geeks On Beer.

Com o mercado de startups completando seis anos no Brasil já vimos diversas falhas em inúmeros setores do ecossistema: investidores que não tiveram sucesso em seus aportes e pararam de investir, aceleradoras que deixaram de existir e startups que quebraram por inúmeros motivos, mas pouco se fala sobre esses casos, no máximo, as pessoas comentam individualmente nos bastidores. Simplesmente, o site sai do ar repentinamente, as redes sociais param de serem atualizadas, gerando inúmeras páginas fantasmas pela rede. Espera-se que o amadurecimento do mercado tragam mais histórias de fracasso à tona, afinal um ecossistema forte é feito através do compartilhamento dos cases de sucesso e das histórias de fracasso da comunidade.