A vida do empreendedor como ela (realmente) é

Empreendedores falam um pouco de suas experiências e mostram que abrir uma empresa pode ser mais difícil do que parece

Por Vanessa Santos - Em 14.08.2015


Quem nunca pensou em ter seu próprio negócio? As pessoas no geral têm uma visão favorável ao empreendedorismo. Para se ter uma ideia, segundo pesquisa realizada em 2014 pela Endeavor, 61% dos entrevistados declaram ter planos de abrir uma empresa nos próximos cinco anos, e 73% alegam que o motivo disso está na qualidade de vida, pois desejam ter mais tempo pra si. A pesquisa mostra ainda que 25% dos empreendedores brasileiros escolheram esse caminho apenas visando fazer fortuna. Mas será que essa ‘glamourização’ não é exagerada?

Monique Corrêa, 34 anos, fundou o PetRoomie, site de hospedagem de animais que promove o encontro entre donos de pets e pessoas dispostas a cuidar deles, em 2013. A motivação, segundo ela, vinha do perfil das empresas que conhecia por aí. “Elas não me representavam. Gastar muitas horas do seu dia para algo que não irá mudar nada, ou até pode piorar, realmente não me move. Se é para não estar no meio do mato ou numa praia relaxando ou fazendo esportes radicais, que essas horas sejam dedicadas para fazer algo que realmente tenha sentido para mim”, explica.

Segundo a ela, essa visão distorcida que os brasileiros têm se deve à falta de uma cultura empreendedora realmente forte. “Temos poucos exemplos”, diz. Ela acredita ainda que, se a motivação para empreender se baseia em um bom salário, mais tempo para outras atividades, estabilidade ou liberdade, é melhor continuar como empregado. “Essa vida tem zero de glamour. Não é nada como aparece em filmes sobre Jobs ou Zuckerberg, até porque não foi assim nem pra eles”, diz.

E ao que tudo indica, realmente não é uma vida fácil. O desenvolvedor Thiago Diniz, de 28 anos, já empreendeu três vezes. Sua última empreitada, o Eventick, é uma plataforma que permite a organizadores gerenciar de maneira simples inscrições online para um ou vários eventos e se comunicar com seu público. Mas, embora a startup ainda esteja em atividade, Diniz acabou se desligando depois de dois anos e quatro meses. “Não foi uma decisão fácil. Como CEO eu tinha que lidar com inúmeros setores, quando na verdade o que eu queria era me aprofundar mais em gerência de produto e growth hacking*. Preferi sair para conseguir focar, pelo menos por enquanto”, explica.

Quando perguntado sobre a visão que a maioria das pessoas têm dos empreendedores, Diniz é taxativo: trata-se de uma visão deturpada. “Os primeiros anos do negócio são bem intensos. Desde a primeira startup não tive qualquer melhora na qualidade de vida, mas trabalhei bem mais satisfeito por estar fazendo meu negócio crescer”, avalia ele, que voltou a ser empregado e hoje é gerente de produtos de uma empresa. “Durante meu tempo no Eventick fiz credenciamento de pelo menos uns 30 eventos em um final de semana, inclusive de madrugada. Para empreender você precisa renunciar a muitas coisas da sua vida para que tudo dê certo. O esforço faz parte, e o que é os iniciantes precisam entender é que não é fácil”.

A jornada empreendedora do programador Guga Alves, 32 anos, também tem sido cheia de desafios. Atualmente à frente da Agência Wattz, consultoria de estrategia e marketing digital fundada em 2014, sua primeira tentativa de empreender foi marcada por uma tragédia: seu escritório ficava no Edifício Liberdade, que desabou em janeiro de 2012, no Centro do Rio de Janeiro. “A empresa acabou fechando com poucos meses de vida. Conseguimos pagar os prejuízos apenas, graças a uma vaquinha feita por amigos na internet, que levantou aproximadamente R$ 20 mil. Mas não tivemos como continuar, e acabei voltando ao mercado de trabalho”, conta.

Ele explica que, apesar do trauma, o tempo mostrou que desistir não era uma opção. “A postura dos amigos em ajudar me mostrou que eu deveria seguir em frente. Hoje luto não só para trazer bons resultados para meus clientes, mas também para mostrar a eles que serei eternamente grato pela nova chance que me deram”, emociona-se. E os novos desafios não param de chegar. “É muito difícil encontrar parceiros que acreditem nos mesmos ideais e queiram seguir ao nosso lado. Hoje tenho um sócio que complementa bem o meu perfil: ele cuida mais de marketing, enquanto me dedico a parte administrativa e técnica. O segredo é dividir para conquistar, não dá pra fazer tudo sozinho”, diz o empreendedor.

Que as dificuldades são muitas não há mais dúvidas. Então o que é preciso para conseguir levar a jornada adiante? Thiago Diniz acredita que, muito mais que determinação, é preciso ter ponderação. “Ser determinado com suposições erradas é ser cabeça dura, e isso é péssimo para o negócio”, diz. Já Monique Corrêa destaca as características que julga essenciais. “A força interna é especialmente importante, porque os obstáculos são muitos, não param de aparecer, e não dá pra travar de medo. Além disso, é importante ter curiosidade, resiliência, bom humor e disponibilidade para suar muito a camisa”, avalia. Guga Alves destaca ainda mais algumas qualidades. “É vital ter muita organização e foco para atingir seus objetivos, bom conhecimento do seu mercado e admitir quando precisar de ajuda. Além disso, é fundamental ter um bom planejamento de marketing, já que você não é o único lutando e a competição sempre vai existir”, finaliza.

* Growth HackingConceito que traduz uma maneira dinâmica e inteligente de ter ideias e soluções para crescimento de produtos, marcas e experiência com usuários por meio da gestão inovadora de dados e tecnologia no ambiente digital, a fim de perseguir novas formas de utilizar estratégias, informações e interações em favor do desenvolvimento de negócios.