Como a limitação da banda larga pode afetar seu trabalho

Brasil pode viver uma “era das trevas” da Internet

Por Felipe Vinha - Em 11.04.2016


Quem começou a usar a Internet nos anos 90 ou início dos anos 2000 lembra bem como era esperar até certo horário para conectar na “discada”, seja para economizar na conta de telefone ou para aproveitar um momento de menor movimento – e maior velocidade. Com a popularização da banda larga, esse passado distante ficou para trás, mas o que nos reserva o futuro pode ser ainda pior e, eu diria, até maligno.

Você já deve ter ouvido falar por aí, mas as grandes operadoras de telecom e Internet querem limitar a banda larga, oferecendo planos de consumo, como já ocorre nas redes de dados de celular. O problema é que, enquanto dispositivos móveis são usados para acessos a redes e páginas que consomem dados em pouca quantidade, um computador pode ultrapassar, e muito, os supostos limites que querem impor. Principalmente para quem usa no trabalho, em uma empresa ou até mesmo para os “freelancers”.

De acordo com o que já foi divulgado, o limite da banda larga só começa efetivamente em janeiro de 2017, mas alguns detalhes já foram revelados, como o plano máximo cogitado até agora ser de 130GB. Em entrevista ao Tecnoblog, um dos executivos da Vivo, agora dona da antiga GVT, alega que esse limite é “mais do que o suficiente” para os usuários. Será mesmo?

Qualquer atualização de software do sistema operacional do computador pode consumir até 3GB em apenas um dia. Quem usa Windows sabe disso com certa frequência, por exemplo. Aplicativos de celular, atualizações nos sistemas dos dispositivos móveis e por aí vai. Quem trabalha em casa e tem costume de usar serviços de armazenamento na nuvem, como One Cloud ou Dropbox, também sai extremamente prejudicado neste limite. O fotógrafo que registrou um casamento no final de semana vai ter pelo menos 30GB de fotos ou vídeos para descarregar nesse processo.

Pior ainda: se o seu empreendimento tem um canal no YouTube ele pode sofrer em duas vias. Primeiro internamente, pois será preciso um maior limite para enviar e baixar conteúdo, e em segundo pelo lado do cliente e espectador, que poderá ver uma quantidade limitada de vídeo online, graças ao seu plano contratado.

E estes são apenas alguns exemplos. A ideia é que, quando o limite acabar, a Internet seja cortada. Se desejar usar mais, compre mais acesso. O formato é até usado no exterior, mas lá fora os limites são bem maiores, a partir de 500GB, e costumam ter o valor bem mais justo do que o oferecido por aqui por banda larga. Se a intenção é replicar um formato de “sucesso”, muita coisa precisa ser modificada em como a Internet é vendida no Brasil.

O que fazer contra isso? Por enquanto, pouco. Internautas e manifestantes contra a iniciativa já estão se movimentando pela rede, criando grupos e páginas de repúdio à novidade. Porém, as empresas parecem ter comprado e abraçado a ideia. Órgãos de defesa ao consumidor, como o Proteste, já declararam que a medida seria ilegal. Mas será que vai dar em algo?

Ter a Internet cortada em seu trabalho por ter atingido o limite estipulado pode nos levar a uma idade das trevas da rede que nunca fomos antes, mesmo na época em que ouvíamos o barulho ruído do modem na hora de discar. Resta aguardar as cenas do próximo capítulo e torcer para que o quadro seja revertido ou retrabalhado.