Como a polarização nas redes sociais pode prejudicar a comunicação

Afinal, estamos falando de um local que deveria servir para debates...

Por Felipe Vinha - Em 19.04.2016


Recentemente, mais uma polêmica envolvendo um deputado de atitudes condenáveis atingiu o grande público das redes sociais em cheio, tratando de assuntos como tortura, homofobia e outras atitudes condenáveis. Foi o suficiente para que ultimatos fossem dados nas redes sociais, com ordens de deleção a amigos que curtem a página oficial da figura pública no Facebook ou qualquer conteúdo relacionado. A arena estava formada, a briga ia começar.

Estamos certos em tudo?

De um lado, os chamados “xerifes de rede social”, com suas ordens de deleção seletiva, de outro lado, aqueles que realmente apoiam o deputado polêmico, que não se intimidam com esse tipo de “ameaça”, se é que podemos classificar assim. Mas seriam só estes dois os lados da moeda? Aliás, existe uma moeda nessa discussão? Um valor que podemos tirar de alguma forma?

A polarização não existe nem em uma discussão de futebol. Se uma pessoa detesta o Flamengo, ela não é automaticamente a favor do Vasco. Ela pode ser torcedora de outro time, ela pode torcer para time nenhum. Ela pode até simplesmente não curtir futebol. Discussões são válidas e agregam valor ao ser humano. Ideias diferentes também.

Nunca estamos certos em tudo. Ninguém é dono da verdade. Hoje você exclui meia dúzia de pessoas que curtiram página de político, mas às vezes nem sabe que pode ter em sua mesma lista de amigos que não curtiu, mas tem ideias até piores e que não compartilha publicamente com ninguém. Essa é a raiz do verdadeiro mal.

Motivações

O debate é sempre a saída. Não é uma saída muito inteligente excluir de sua vida uma pessoa apenas por ela pensar ou agir diferente, a não ser que ela cometa um crime contra sua pessoa ou te prejudique de alguma forma séria. A vida é feita de troca de ideias, de conversas e bate-papos. Se conversamos apenas com quem pensa na mesma linha, nunca evoluiremos, nunca abriremos os olhos para outras oportunidades ou mudanças.

Isso vale para quem curte o deputado também. Se, por qualquer motivo, um amigo seu curte aquela ou outra página, por qual motivo não podemos sentar e conversar, trocar uma ideia com essa pessoa, e ver se ela realmente está ali para dar apoio às ideias da figura ou se está apenas por motivos de curiosidade ou profissionais? E, qualquer caso que seja, é sempre possível mudar a cabeça de uma pessoa, seja para o bem ou para o mal. Mas para isso é preciso haver debate.

Como citei, as motivações podem ser muitas. Em meu círculo de amigos tenho aqueles que trabalham com política, e que assim precisam curtir e seguir páginas de diversos políticos em exercício, sejam eles polêmicos ou honestos. Naturalmente conheço diversos jornalistas, e eles igualmente precisam se informar diretamente na fonte em muitas das vezes, então o mais natural seria seguir político A ou B. Não podemos ser juri, juiz e executor.

Se nos fecharmos no nosso mundo, na nossa área segura onde todos têm a mesma opinião, como vamos poder influenciar uma pessoa de fora? E assim surgem os partidos exclusivamente religiosos, os milicianos, os de qualquer outro cunho questionável – só para exemplificar ainda na área da política.

A comunicação como uma falha

Da forma como está hoje, a comunicação, função primária das redes sociais, falha. Seja ela pessoal ou profissional, pode ser prejudicial em muitas esferas. É inteiramente correto não concordar com a postura de uma pessoa condenável e não querer dar espaço para esse tipo de ideia. O político em questão é uma figura pública e já sabemos de suas convicções. Mas aquele seu amigo, por qualquer motivo que o tenha levado a curtir a página, tem suas convicções públicas da mesma forma? Que tal, antes de bradar para o mundo a exclusão, chamar para uma conversa?

É possível fazer isso não só com amigos, mas também com pessoas que você não tem muitos contatos. Afinal, o mundo não é feito somente dos seus círculos pessoais mais próximos. Expandir é necessário. Ter contatos é uma constante. Hoje você precisa de X, amanhã de Y, e a Terra continua girando.

E, sobre as atitudes do político em questão, deixamos apenas a palavra do jornalista Ricardo Boechat, a qual compartilhamos inteiramente.