Empreender é com elas

Pesquisa da Endeavor mostra que o Brasil tem a maior proporção de mulheres empreendedoras entre os países do G-20

Por Vanessa Santos - Em 09.03.2015


Empreender no Brasil não é tarefa das mais simples. Ambiente regulatório desfavorável, infraestrutura deficiente e falta de capital humano são apenas alguns dos desafios encontrados quando se decide abrir uma empresa. No entanto, o que dizer quando o empreendedor é uma mulher?

Um levantamento da consultoria EY (antiga Ernest & Young) feito em 2013 revelou que o Brasil tem a maior proporção de empreendedorismo feminino entre os países integrantes do G-20, o grupo formado pelas 20 maiores economias do mundo: são 10,4 milhões de mulheres empreendedoras, o que representa 14% da população com idade economicamente ativa (de 18 a 64 anos). O número supera o de países como Argentina (12%), México (10%), África do Sul (8,5%) e Austrália (6,5%). Outro estudo, realizado pela Serasa Experian, revela que 43% dos donos de negócios são do sexo feminino, contra 57% do sexo masculino. Do total de empresas ativas no país, 30% têm mulheres como sócias, sendo que 73% em micro ou pequenas empresas. O percentual sobe para 98,5% quando são contabilizadas as do tipo MEI (Micro Empreendedor Individual).

No entanto, se empreender já é difícil, ser mulher nesse meio pode ser um fator ainda mais complicado. Monique Fernandes começou a empreender há quatro anos, primeiro em sociedade e, mais tarde, sozinha. “O fato de ter escolhido o setor de tecnologia, majoritariamente masculino, foi difícil. Demorei a conquistar meu espaço, tive que administrar algumas situações desconfortáveis e fui colocando limites”, conta a fundadora da Tagarela. Segundo ela, os desafios são diários. “A mulher por si só já tem muitos conflitos: culpa-se por não se dedicar mais à vida pessoal e à família, e acumula funções”, completa.

Essa, aliás, é a grande dificuldade apontada por Isabel Wanderley, CTO da eStoks. Ela conta que o preconceito no meio nunca foi sentido, mas que ao ser mãe conheceu o verdadeiro desafio. “Ter um filho e empreender é muito mais difícil quando se é mulher, pois exige que você seja multitarefa e que tenha muito equilíbrio e organização para conseguir colocar a energia necessária para tocar esses dois negócios. Afinal, ter um bebê é quase criar uma empresa do zero: tudo novo, com dificuldades a cada dia”, explica.

A fundadora da Pet Roomie, Monique Corrêa, vai ainda mais longe. “Acredito em dificuldades femininas em qualquer papel, seja empreendendo, seja em conseguir ascensão de cargo em grandes empresas”. Mas, segundo ela, esse é um problema que tem solução. “É preciso vencer muitas barreiras internas e culturais, saindo do papel de boazinhas moldadas pela sociedade para um papel mais ativo, entendendo que metas e resultados podem ser alcançados por mulheres e que sim, é possível conciliar vida pessoal e empresa”.

E ao que tudo indica, elas estão presentes não só em quantidade como têm feito grande diferença nesse meio. Um estudo feito pela Endeavor em 2012, o primeiro que levou em consideração a diferença de gêneros, mostrou que elas têm muito mais facilidade de atrair e reter talentos, item considerado o maior entrave para qualquer empresário: 57,7% dos homens declararam ter dificuldades na área de recursos humanos ou no processo produtivo, percentual que cai para 34,6% quando falamos das mulheres.

A pesquisa apontou ainda que, enquanto os homens se concentram mais nas áreas tradicionais, como a indústria, e inovam na criação de produtos – o que gera níveis mais elevados de registro de patentes –, as mulheres inovam no processo produtivo, implementando novas técnicas de marketing, recursos humanos e integração de equipe, por exemplo. O problema nisso é que suas inovações acabam ficando menos visíveis, o que faz com que elas tenham mais dificuldade em obter ajuda financeira. Os dados mostram que 38,5% dos homens entrevistados obtiveram algum tipo de financiamento governamental, enquanto apenas 19,2% das mulheres conquistaram o mesmo.

Mas uma coisa é certa: não importa quão hostil é o ecossistema empreendedor, as mulheres chegaram para ficar. Monique Corrêa é categórica: “Precisamos quebrar a ideia de que somos vítimas. As mulheres precisam assumir as rédeas de suas vidas e de seu sucesso”. Isabel Wanderley acredita que a natureza feminina só ajuda. “Temos a empatia e sensibilidade necessárias para gerir pessoas, o que é fundamental quando o assunto é empreender”. E ao avaliar o atual cenário, Monique Fernandes é bastante otimista. “Acredito que ainda estamos engatinhando, mas já tivemos uma evolução significativa. Temos hoje diversos movimentos de incentivo nesse sentido”, finaliza.