Negócio social: empoderamento de refugiadas ganha Shell Iniciativa Jovem

Startup tem como objetivo empoderar economicamente mulheres africanas que vivem no Rio de Janeiro

Por Vanessa Santos - Em 19.12.2017


Um negócio social de empoderamento econômico de mulheres refugiadas. Em uma edição que premiou especialmente mulheres, parece adequado que a startup Mulheres do Sul Global tenha sido a primeira colocada da edição de 2017 da Feira de Negócios do Shell Iniciativa Jovem.

De acordo com Emanuela Pinheiro, criadora da startup, o Mulheres do Sul Global “é um negócio social de empoderamento econômico de mulheres refugiadas com talento em costura, por meio da promoção do empreendedorismo, capacitação de habilidades, criação e venda de peças de costura comprometidos com os novos paradigmas de se fazer e consumir sustentável”. Ainda segundo a empreendedora, o objetivo do projeto é fortalecer talentosas costureiras angolanas e congolesas. “Viabilizamos todo o maquinário para trabalhar de casa e formação em costura de ateliê, além do desenvolvimento de uma rede de trabalho, com geração de renda para elas refazerem suas vidas e para a sustentação do negócio social”, explica.

A motivação para a criação do Negócio Social

Mas de onde veio a ideia para um negócio que tem um público-alvo tão peculiar e específico? “De 2015 a 2016 fiz um ano sabático na Índia e fui voluntária coordenando projetos num monastério budista tibetano. Lá, me deram a missão de colocar em ordem as finanças de um ateliê de costura”, comenta Emanuela. “Nesse processo vivi in loco a realidade da indústria têxtil na Ásia. Vi muitas mulheres costurando na beira de estradas de terra, onde os carros passavam e as faziam desaparecer em meio a poeira”, lamenta ela, que continua: “Visitei um vilarejo num estado de Bihar, o mais pobre da Índia, onde todas as casas tinham um tear e todas as famílias trabalhavam nele, inclusive as crianças. Não havia escola perto e toda a venda daquela produção era explorada por uma única pessoa do vilarejo”.

Fica claro que a motivação veio de uma série de acontecimentos. “Outra questão que me marcou muito foi a submissão das mulheres aos homens no ateliê, sem direito a fala e a mercê de inúmeros abusos verbais e físicos. Toda essa vivência me transformou muito. Ao voltar para o Rio estava determinada a fazer um trabalho com mulheres e costura. Mas era um desafio tremendo pra mim. Não sabia absolutamente nada de costura. Só tinha o chamado do coração de querer fazer esse projeto. Mas não sabia bem por onde começar”, explica.

Ao voltar para o Rio de Janeiro, a empreendedora começou uma escola livre de cinema documentário. Foi quando procurou a Cáritas, organização que faz a acolhida de refugiados. “A ideia era fazer um documentário com mulheres refugiadas. Esse trabalho, que ganhou o nome de “A Mulher em Travessia”, foi o meu contato com essa realidade”, diz. “Quando eu ligava a câmera pra filmá-las, muitas congolesas me pediam máquina de costura. Foi daí que fui saber que muitas delas aprendem costura na escola no Congo e que, já vindas com essa profissionalização, elas querem trabalhar com costura aqui no Brasil. Mas todas as propostas de trabalho que são oferecidas para elas são vagas de faxineira, e em condições que elas são conseguem se manter por conta do horário dos filhos na escola, não ter parentes próximos e toda a complexidade que é a condição do refugiado”.

Com esse “pacote de desafios”, como ela mesma chama, Emanuela começou a olhar com mais carinho para esse grupo de mulheres africanas. “Elas têm uma comunidade imensa no Rio. Por isso, o projeto nasceu com essa missão de empoderá-las nessa reconstrução: aperfeiçoamento das técnicas, acesso a máquina de costura, ir atrás de encomendas e construir uma marca que tenha a identidade delas”.

Shell Iniciativa Jovem

De acordo com Emanuela, o projeto nasceu e se moldou dentro do programa Shell Iniciativa Jovem. “Ao me inscrever no programa eu tinha uma intenção maravilhosa de projeto, mas era só uma ideia que precisaria ser muito amadurecida e testada”, diz ela, que acredita que o programa teve um papel importante em todo o desenvolvimento. “A equipe de profissionais envolvidos na metodologia do programa é formidável. Eu parti de uma ideia para a construção de um plano de negócios, com entendimento de todas as etapas para se colocar um negócio de pé. Toda essa transformação de projeto para um negócio social, que é o meu caso, só foi possível graças a todo o aprendizado que eu recebi não só do programa, mas da sinergia intensa e maravilhosa que é co-construir os negócios com meus companheiros”, comenta.

Emanuela comenta que o dia da feira de negócios foi mágico. “Foi a primeira vez que apresentei uma arara com a nossa primeira coleção em costura. As costureiras estavam lá, maravilhadas em ver pela primeira vez o seu trabalho sendo exibido para o público”, orgulha-se. “Ver o encantamento dos meus avaliadores e o interesse profundo deles em querer saber toda a narrativa do projeto, de conhecer toda a equipe, nos abraçar emocionados, foi o momento que senti toda a energia de estar fazendo um trabalho que eu verdadeiramente acredito”, diz ela, que não esperava estar entre as finalistas, muito menos em levar o prêmio pra casa. “Na hora eu não pensei no prêmio. Só pensava naquela troca mágica que estava acontecendo em todos que se emocionam ao conhecer o projeto. A primeira colocação foi um presente incrível do universo para renovar as energia e seguir com firme determinação no meu propósito. Uma emoção compartilhada com todos os meus amigos do iniciativa jovem”, emociona-se.

O futuro

De acordo com Emanuela Pinheiro, sua startup já nasceu com uma missão desafiadora. “Nossa inauguração como negócio social é recente. Nessa primeira fase do negócio a prioridade é empoderar as costureiras com maquinário e um aperfeiçamento em costura. Com o dinheiro do prêmio Shell Iniciativa Jovem, vamos investir com foco na produção da nossa primeira coleção. A venda desse material trará renda para as costureiras e fôlego para o negócio continuar desenvolvendo novas coleções e trazer mais mulheres refugiadas para o negócio”, avalia.

Hoje o Mulheres do Sul Global conta com quatro costureiras refugiadas. O sonho? Amadurecer o modelo de negócios. “Queremos trazer mais refugiadas para o nosso time”, diz ela, que explica que hoje a empresa trabalha com dois tipos de coleção: gastronomia e casa. “São vestimentas de chefs de cozinha, aventais, guardanapos em tecidos, entre outros, que mesclam tecidos africanos e tecidos brasileiros. O objetivo com essa coleção é termos um portfólio nosso que nos permita fazer uma venda direta e também prospecção de encomendas de costura. No futuro próximo, projetamos também desenvolver uma marca de roupa feminina que tenha a identidade delas”, orgulha-se.