Qual o legado empreendedor das Olimpíadas?

Em tempos de crise, é chegado o momento de descobrir se valeu a pena

Por Vanessa Santos - Em 27.12.2016


Não é segredo para ninguém que estamos em meio a uma crise econômica de grandes proporções no Brasil e, em especial, no Rio de Janeiro. Mesmo após o sucesso das Olimpíadas na cidade, a recessão virou tema recorrente não só em noticiários, mas até mesmo em mesas de bar. E vale lembrar que dados divulgados pelo instituto Datafolha em 5 de agosto de 2016 mostraram que 50% dos brasileiros eram contrários a realização dos Jogos no Rio. O instituto ainda apontou na época que 63% acreditavam que o evento traria mais prejuízos do que benefícios para os brasileiros em geral. Por isso, é mais do que chegado o momento de avaliar qual foi o tal legado deixado, e ver até que ponto essas pessoas estavam certas.

É nesse cenário que o Índice de Cidades Empreendedoras (ICE) chegou à sua terceira edição, já trazendo reflexos da crise e apontando um diagnóstico, cada vez mais urgente, para a melhoria do ambiente empreendedor das cidades. O ICE é realizado pela Endeavor — uma das principais organizações de fomento ao empreendedorismo no mundo — , e avalia o ambiente empreendedor de 32 cidades brasileiras sob a ótica de 60 indicadores, distribuídos nos sete pilares que mais impactam a vida do empreendedor: ambiente regulatório, infraestrutura, mercado, acesso a capital, inovação, capital humano e cultura empreendedora.

Empreendedorismo é a saída?

Já está mais do que provado que sim, o empreendedorismo é uma das molas que deve tirar a Rio de Janeiro — bem como todo o país — do buraco da crise. Dito isso, há muito a ser feito para que as melhoras se tornem uma realidade. Os Jogos Olímpicos teriam sido uma ótima oportunidade para colocar essas mudanças positivas em prática, mas ao que parece não foi o que aconteceu.

Além da recessão econômica, que fez o crescimento médio do PIB nas cidades cair, outros efeitos são visíveis. É o caso dos recursos financeiros, com queda na poupança per capita, nos empréstimos e nos investimentos de Private Equity, que teve redução de 23%. Diversos parques tecnológicos ainda não saíram do papel e a educação também foi afetada, com queda inédita na proporção de alunos no ensino médio (de 2,2%) e fechamento de vagas no ensino técnico por todo país.

E o Rio de Janeiro continua… Caindo

Enquanto diversas cidades já utilizam o estudo a fim de direcionar esforços no campo das políticas públicas, o Rio de Janeiro mostra que não deu a devida atenção à questão. O estudo mostra que a capital paulista domina o ranking geral pelo segundo ano consecutivo, mas o Rio de Janeiro ocupa a 14ª colocação, caindo quatro posições em relação ao estudo anterior e ficando atrás de municípios como Caxias do Sul, Blumenau e São José dos Campos.

indice-geral_ice2016

Um dos grandes responsáveis pelo péssimo resultado é o ambiente regulatório. O Rio tem nove dos 12 indicadores do pilar abaixo da média das 32 cidades participantes. É também a penúltima em tempo de regularização de imóveis — 210 dias — e a cidade que mais altera as regras legislativas dos impostos municipais — 59 alterações em um ano, quando a média do estudo é 23.

Existem ainda outros dados que chamam atenção para a cidade:

  • Com a crise, o Rio de Janeiro sofreu uma queda no número de matrículas no ensino técnico (2.501 vagas a menos em 2015, uma queda 3,6%, contra alta de 2,4% nas 32 cidades do ICE);
  • Apesar da realização dos jogos, as compras públicas da prefeitura para empreendedores caíram 34% em um ano;
  • A cidade também teve queda de 32% nos investimentos de Private Equity;
  • Enquanto, na média, as cidades do estudo avançaram 0,3 no IDEB dos anos finais do Fundamental, o Rio tirou a mesma nota de 2013 e novamente não cumpriu sua meta.

A conclusão é: embora o evento tenha ocorrido sem grandes sobressaltos e sido considerado um sucesso, o tal legado — pelo menos no que diz respeito ao empreendedorismo — não veio. Muitos empreendedores não tiveram como “surfar” na onda, justamente pelas dificuldades de se abrir e, principalmente, manter um negócio na cidade carioca. Uma solução talvez seja utilizar o estudo feito pela Endeavor para desenvolver políticas públicas de incentivo ao empreendedor, a exemplo de outras cidades. Quem sabe na próxima?