RIP Videolog

A história por trás do fim do primeiro portal de compartilhamento de vídeos do mundo

Por Redação - Em 03.11.2015


Demorei muitos meses para escrever este texto, basicamente é um pronunciamento do óbvio, do que muitos já sabem, mas que se faz completamente necessário para que mais pessoas tenham conhecimento. O Videolog.tv, o primeiro portal de vídeos do mundo quebrou. Sim. Isso mesmo: quebrou! Encerrou suas operações em 31 de janeiro de 2015.

Talvez para você, leitor desse texto, um mundo sem portais de vídeos, não faça nenhum sentido. Mas a realidade nem sempre foi assim. Houve um tempo em que para assistir o que os amigos produziam com suas câmeras caseiras, só era possível tivessem sido gravados em uma fita K7. Isso não faz tanto tempo assim. O movimento de produção de conteúdo caseiro (que você conhece bem através de Youtubers, Instagramers e Snapchaters), existe há décadas mas, sua distribuição, nunca foi algo simples, eficiente e barato como é hoje.

Em 1998, Eu tinha 16 anos e já dava meus primeiros passos no mundo dos negócios com Ariel Alexandre, que tinha 15 anos. Posso dizer que já naquela idade era alguém sensacional e que até hoje, é o cara mais genial que tenho a honra de conhecer! Trabalhávamos em emissoras de rádio no Rio de janeiro e juntos identificamos que muitas tinham dificuldades de lidar com tecnologia. Desde a implementação de sistemas de automação, passando pela produção de simples vinhetas, chegando até a gravação de comerciais. Enxergando isso, Ariel e eu abrimos uma produtora chamada Produzindo Som Arte e Tecnologia LTDA, que tinha como DNA a evolução constante e nunca cair no marasmo do pessoal do rádio.

Crescemos muito rápido e logo chegamos a um ponto crítico: como continuar crescendo, gastando menos e ter um diferencial competitivo? Eu vivia reclamando dos custos com logística. Então, aproveitando a onda dos “Blogs” e dos “Fotologs”, o Ariel deu a ideia de hospedar os vídeos de nossas produções em pastas virtuais com um botão de play. Após alguns meses de pesquisa, desenvolvimento e investimento de capital próprio, em Maio de 2004, nascia assim uma revolução, o primeiro portal de compartilhamento de vídeos do mundo. Você pode até não acreditar, já que esta é uma história que a imprensa brasileira (infelizmente) contou muito pouco. Naquela época não existia esse glamour empreendedor todo.

Logo no início de nossa operação, conquistamos uma parceria com o Click21, (um antigo portal da Embratel), nesta época o principal modelo de negócio da internet era criar produtos que atraíssem a audiência. Ganhava-se dinheiro com Interconexão de dados entre operadoras. Nós tínhamos um grande volume de trafego, muitas pessoas hospedavam os seus vídeos para compartilhar com os parentes distantes, amigos etc. Por isso, fomos atraídos para Oi Internet, uma ousada proposta que envolvia dezenas de empresas que tinham como propósito criar uma operação gigantesca com anúncios na TV e a massificação do uso da Internet. Após quase um ano de tropeços e insucessos, optamos por cancelar o contrato. Em Dezembro de 2006, fechamos uma parceria exclusiva com o UOL. Mesmo com nossa pouquissima experiência com a “tal da internet”, o UOL foi muito mais que parceiro, foi um irmão mais velho que só nos fez crescer, um lugar mágico que nos ajudou a conquistar, na época, o status de um dos 10 sites mais visitados do mundo, segundo o Alexa.

Nos últimos 11 anos, sempre as vésperas do evento iMasters InterCon, eu dedicava um tempo para refletir sobre quais foram as conquistas e aprendizados da minha empresa e da minha vida. Sempre declarei que nosso “Ano Fiscal” era contabilizado a cada InterCon. Desta vez, não está sendo diferente, estou usando este mesmo tempo para concentrar forças e reconhecer publicamente o fim deste ciclo. Segundo Jung, “Aqueles que não aprendem nada sobre os fatos desagradáveis de suas vidas, forçam a consciência cósmica que os reproduza tantas vezes quanto seja necessário, para aprender o que ensina o drama do que aconteceu. O que negas te submete. O que aceitas te transforma.” Partindo desse princípio, estou aceitando o fim e, por isso, o anúncio oficial e não mais oficioso.

Para evitar especulações, nosso fim em nada teve a ver com a explosão do YouTube, nosso maior competidor desde que a Cicarelli resolveu namorar na praia. Muito menos com nosso mais querido congênere Vimeo. Você vai entender que a questão está diretamente relacionada às decisões que tomamos.

Em meio a crise de 2009, nós apostamos alto, foi o período que mais crescemos, contratamos, investimos. Era conseguir ou conseguir. E conseguimos!

Com 5 anos de mercado de vídeos, fizemos uma megafesta em São Paulo para 400 pessoas do mercado e isso garantiu nossa sobrevivência. Porém, toda esta movimentação afetou diretamente nossas relações internas e externas. Apesar de ter um contrato muito sólido e duradouro com o UOL, começamos a acreditar que já era hora de tentar um voo ainda maior. Rompemos o contrato dois anos antes de seu fim, pagamos uma multa alta por esta quebra e em novembro de 2010, fizemos a movimentação mais ousada e coerente de nossa história. Fechamos um excelente contrato com a Rede Record de Televisão, para atender o Portal R7.

Com esta movimentação, muitas coisas legais começaram a acontecer. Recebemos algumas propostas de investimento, mas tínhamos caixa suficiente para negar a maioria delas. Porém, uma outra nos chamou muito a atenção, uma empresa que até então admirávamos muito, por suas iniciativas com games e tinha uma proposta complementar e bem parecida com a nossa. Seria uma união natural: eles tinham um excelente marketing e uma tecnologia duvidável e já nós, o contrário. O grande problema é que, esta empresa, quem queríamos nos unir, nós tínhamos substituído eles no R7, e isso me deixava com o pé muito atrás para levar qualquer negociação adiante. Na época, um pensamento era recorrente na minha cabeça: “Será que eles querem mesmo se juntar conosco?”

Ao longo dos meses de negociação e muitas viagens para a cidade sede da dessa empresa, decidimos juntar as escovas de dentes. Eles cuidariam do Corporativo e nós da interface com os usuários finais. Como responsável pelo Marketing eu sabia que nós não éramos bons nisso, e eles eram incríveis! Nosso negócio sempre foi Tecnologia e Inovação! Acordamos juntos por telefones soltar uma Nota para imprensa para “selar” nossa aliança” a Nota deveria ser: “Empresa X e Videolog, unem-se para explorar o mercado de vídeos e crescerem juntas…”  Mas, por vaidade ou por algum erro da assessoria deles (nunca saberei) a nota que saiu em setembro de 2011 foi um pouco diferente da original: “Empresa X compra Videolog visando expandir na América Latina.” Se quiser ver as notícias da época, veja aqui.

Se compraram, nunca pagaram e após muitas incoerências no discurso, cinco meses depois soltaram uma nota site da empresa dizendo que a compra não foi concretizada, pois não foi encontrado um modelo de negócios em comum. Só que aí, o estrago já estava feito: Imaginem a energia que tive que dedicar para reconstruir nossa relação com o mercado. O pior, meu principal parceiro na época, o R7, e com prioridade de compra de nossa empresa, chega para mim e diz: “Como vocês se vendem para com quem cancelamos o contrato?”
Foi o que eu ouvi em uma reunião convocada às pressas na sede do portal.  Eu poderia ficar horas descrevendo todas as conversas que tive com cada pilar importante do mercado e se até hoje eu sou uma pessoa respeitada por minhas conquistas, você pode imaginar que não fui incoerente. Como todos sabemos, toda história tem três lados: a versão de A, a versão de B e a verdade!

Mas, você deve está se perguntando: Por que ele está contando isso agora? Meus mentores na época me aconselharam pelo nosso bem e devido um acordo de confidencialidade de dois anos, não tornar isso público. Com o fim do Videolog e desse acordo, acredito que seja importante o mercado saber destas histórias de bastidores do empreendedorismo digital brasileiro. Posso dizer que tem muito mais caroço nesse angu. Eu poderia muito bem inventar factóides, criar uma venda e fazer uma saída estratégica pela direita, como muitos empreendedores brasileiros fazem para não oficializar a falência… Mas estou farto de todo este circo de egos e vaidades do cenário de startups no Brasil! Certa vez, um cara em depressão foi procurar um médico que o aconselhou a ir a um circo que estava na cidade para assistir a um palhaço que era capaz de levantar até o mais triste dos tristes… antes de terminar, o paciente respondeu, eu sou este palhaço. E é assim que me sinto!

Não estou aqui para culpar nada e nem ninguém pelo fim do Videolog. Dediquei 12 anos ininterruptos para manter a empresa viva e pulsando. Muitas coisas incríveis aconteceram comigo, mas em 2010 passei por um período tão difícil em minha vida que nunca tive coragem de contar. Mesmo muito dos meus amigos mais próximos não sabem, mas cheguei a morar em um Hostel na Lapa, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Nessa época, contava com pouco dinheiro até para comer enquanto ganhava prêmios de “o Empreendedor do Ano” de grandes revistas. Mas como é da lama que nascem as flores, comecei aceitar todo o convite que eu recebia para palestrar. Aceitava, pois, mesmo quando não ganhava cachê, tinha alimentação e uma cama de hotel para dormir. Aos poucos com trabalho duro conseguimos nos levantar, nos recuperar financeiramente, contratrar mais pessoas e investir em marketing. No fim de 2013, fiz uma proposta de compra de 80% das ações da empresa, dividi 4,5% para nossos principais funcionários estratégicos e convidei meu amigo, sócio e CTO Ariel Alexandre (aquele que começou comigo, lembra?), para cuidar de nosso conselho, com um percentual do grupo enquanto tocava seus outros projetos pessoais.

Em janeiro de 2014, nos associamos à aceleradora 21212 e transformamos a empresa em Videolog S/A, com o objetivo de internacionalizar. Vivíamos, novamente, o momento de “conseguir ou conseguir”. Foi um período incrível de aprendizado e muita luta. Posso garantir que foi fantástico estar com eles, mas o mercado já havia mudado muito; o Facebook havia começado a investir pesado em algorítimos para ranking de vídeos e a sua disputa direta com o Google para abocanhar um pedaço ainda maior do mercado publicitário, obrigou o mercado de propaganda na internet a reduzir seus preços de centenas de reais a centavos. Foi incrível para pequenos negócios, porém obrigou portais verticais a entrar em modelos de dependência direta de programas de afiliados e Adwords. Como consequência desse movimento, nos forçou a renegociar nosso contrato com o R7 até culminar com o seu cancelamento em abril de 2014.

Em julho de 2014 conquistamos como parceiros estratégicos o grupo Batanga Networking baseados em Miami. Mas, a esta altura tínhamos outros problemas: o dólar aumentou exponencialmente, enquanto a nossa audiência era inversamente proporcional. Mesmo com todo empenho do time, o Videolog já tinha entrado em uma queda irreversível. Sendo assim, suspendemos o acordo amigavelmente em dezembro 2014.

Nessa época, nossos custos com servidores ultrapassavam o montante de US$ 40 mil, fora toda a operação. Mesmo tendo mantido a empresa com recursos próprios entre a quebra com o R7 e a entrada na Batanga. Após o negócio ter retornado para mim novamente, ainda tentei manter ele de pé por alguns meses, reduzi a operação a quatro pessoas. Mas, mesmo assim, meu dinheiro acabou. Não só o dinheiro, mas minhas forças acabaram e precisei de muita inteligência emocional para cometer eutanásia naquele que havia sido um marco na história moderna. No meio desse turbilhão, de suspensão de contratos e declínio da empresa, minha filha nascera, em um hospital público. Ela que veio ao mundo com o nome de Sofia, que literalmente significa sabedoria, me trouxe muitos ensinamentos. Ela é a razão por eu ser resiliente a ponto de superar tudo isso e ainda ter sorrisos às centenas de pessoas que falam comigo, para acalmar meu coração.

O início de 2015 foi extremamente duro, e no meio de tanta dor e sofrimento fui acolhido pelo grupo iMasters, a empresa que produz o evento que sempre tive como marco em minha carreira. Hoje faço parte do grupo e atuo na área de negócios e parcerias. Isso provocou minha mudança, em definitivo, para a cidade de São Paulo, que tanto amo.

Cada um pode ter uma reação diferente ao ler este texto, alguns podem sentir tristeza, outros raiva por eu estar falando verdades. Porém, meu objetivo é me desculpar. Sim, desculpar, com cada um dos nosso mais de 1,2 milhão de usuários, com os mais de 70 funcionários diretos que passaram pelo meu time.

Não tenho a pretensão de provocar nenhuma reviravolta no mercado, mas dou alguns conselhos aos empreendedores que ainda estão na luta:
– Revise cada etapa de suas parcerias e sempre faça um double check com ambas as partes;
– Tenha a certeza de que todos os lados estão de acordo com o que estão fechando;
– Evite mal entendido, dúvidas ou meias palavras;
– Já está na hora de parar de motivar pessoas a empreender por que é legal e está na moda. O Brasil não é um país para amadores, e mesmo que você dedique sua vida a isso, apenas o seu caráter, dedicação, organização e processos vão te mostrar a diferença entre Joio e trigo.

Este meu jeito franco e transparente fez com que, na semana que eu escrevo este texto, esteja concorrendo a “Melhor Mentor” no SparkAwards, o Oscar das Startups do Brasil. Não sei se vou ganhar, mas quero dizer que isso não importa. Não é um prêmio ou um título que vai definir quem você é ou onde vai chegar. Não acredite em tudo o que a imprensa diz, afinal, como costumo dizer:  eu parei de acreditar na mídia, quando comecei a mentir pra ela!
Se você quer emprender, faça como diz Osho: “Opte por aquilo que faz o seu coração vibrar. Apesar de todas as consequências.”

Empresas e empreendedores que quebram não são bem vistos em nosso país. Fracassar é feio! No Vale do Silício o fracasso é valorizado, pois lições foram aprendidas. Aqui as pessoas escondem as derrotas. Se eu te prejudiquei, me desculpe. Não foi intencional. Eu tentei. Ainda estou tentando melhorar com os meus erros.

E a você, querido Videolog, grande companheiro, gratidão sem fim por tudo o que vivemos juntos nesses dez anos, mas agora, descanse em paz.

 

Edson Mackeenzy, radialista, abandonou o Rádio e conquistou experiência em negócios digitais. Fundador e CEO do 1° portal de videos do mundo, o que o tornou especialista em gestão e operação, comunicação estratégica e Pitch. É co-autor de dois livros sobre empreendedorismo. Facilitador de centenas de Startup Weekend, mentor em aceleradoras e de diversas startups espalhadas pelo país. Foi eleito em 2013 um dos empreendedores mais influentes do Brasil pela Revista Istoé Dinheiro. É membro do conselho da RioSoft (agente Softex), envolvido em centenas de conferências de comunicação, empreendedorismo, tecnologia e negócios em diversas cidades do Brasil e do Mundo.